Nesta Lua Cheia de agosto 2024, trago uma história tão especial… Sempre as histórias são especiais, como eu falei numa Live anterior, todos somos especiais e as histórias então, nem se fala! Vou contar uma história do Apuí, que é uma árvore nativa da região amazônica.
Na linguagem popular se usa o termo Apuí para denominar diferentes espécies, como o Ficus insipida e o Ficus fagifolia. Estas espécies têm uma característica específica – elas são chamadas de hemiepífitas porque crescem sobre outras árvores. Mas na verdade são bem diferentes porque elas sufocam as suas hospedeiras e acabam por dominá-las completamente, o que não é o caso das epífitas, que respeitam inteiramente suas hospedeiras e não retiram nada delas.
Quero contar para vocês sobre um diálogo que tive com o Apuí, lá na Floresta Amazônica, quando estava fazendo uma imersão.
Quando eu cheguei naquele lugar, era de madrugada, e me conduziram para dormir naqueles quartinhos de madeira, com teto de palha. Então de manhã, quando despertei e fui andar naquele pedaço, ali perto do meu quartinho tinha uma placa dizendo assim: “Bem-vindo ao Apuí”. Eu fiquei ligada nessa história, pois na nossa região conhecemos o Apuí por esse ter este comportamento muito específico e uma flor cheirosíssima; sempre quis fazer floral dela e acabei nunca fazendo. É uma flor muito diferente, tem uma cor de ferrugem, tem uma textura rígida e um perfume inebriante, doce, muito especial, e no miolinho dela tem uma resina que se usa para colocar em misturas de ervas para a defumação lá no Centro Medicina da Floresta. Esse ser sempre “acenou”, mas são assim as histórias com as plantas; de repente você sonha com elas e no dia seguinte você acha e faz um floral, por exemplo; tem outras que você fica namorando, olha para elas, te “chamam”, chega perto, então acontece aquele momento específico de fazer um floral ou de ter uma integração, um diálogo com aquele ser.
Quando cheguei no Croa, eu fui parar nesses quartinhos e fui para esse lugarzinho que era a área do Apuí; quando olhei, parecia só uma árvore, já não se via a hospedeira dela. Muitas pessoas não gostam do Apuí, porque ele ataca as árvores, ele se joga para cima delas; parece umas mãozinhas que se agarram à árvore, vão abraçando e dominando ela, e no fim, você já não vê nem sinal daquela árvore hospedeira. Do nosso ponto de vista, quando olhamos, achamos que ele tem um comportamento parasita. Mas, já naquela época que eu andava ali pelo Vale do Juruá, conversei com um pessoal da área de estudos mais científicos sobre a natureza florestal, que disseram que o Apuí tinha um papel muito importante naquele ecossistema porque essas árvores que eles atacam é para equilibrar, ou porque ela está em excesso, ou porque está atrapalhando algo; ele promove um equilíbrio baseado na eliminação do que está em excesso. E eu achei isso tão intrigante, pois lembrei que tive uma experiência que já remete um pouco a isso, lá no Centro Medicina da Floresta, onde plantamos uma palmeira de dendê, cuja muda tínhamos ganhado e ficamos encantados; ela era bem bonitinha, já estava bem grandinha, linda e aí porque o Apuí atacou ela era exótica, não era dali. Cortamos o Apuí, mas ele atacou de novo, foi aquela luta. Então acontece isso com essa planta.
Continuando a história, nessa imersão no Croa, no dia seguinte, íamos fazer uma Vivência da Água no lago, mas o lugar estava com muitos turistas, muito barulho, então resolvemos fazer a Vivência da Terra, lá para dentro da floresta, nos embrenhamos na mata e lá quando chegamos, no pé de uma Samaúma muito bonita, eu fiquei tomando floral de Japana Roxa – que é um floral de acolhimento, que traz sentido de pertencimento, de pertencer à Grande Mãe e eu estava nessa energia. No momento inicial da vivência, cada um foi se conectar com a terra, procurar alguma conversa, algum diálogo, alguma conexão com os seres dali – um momento individual. Eu fui andando pela mata, no chão estava cheio de flores; eu fiquei perto daquelas flores de uma árvore que conheço, observando, quando senti uma força nas minhas costas que me atraía. Quando me virei e olhei, era o Apuí, então pensei que tinha chegado a hora de conversar com ele. Era bem grande, bonito, mas ainda não tinha acabado de dominar outra árvore em que ele tinha avançado; via-se nitidamente um ser dominando outro.
Foi interessante, porque me lembrei de várias experiências que tive no dia anterior, em que havia uma expectativa em relação ao que programei naquele lugar maravilhoso, como a vivência no lago, e tudo não favoreceu aquela proposta. Isso aconteceu ao longo do dia anterior, em várias situações que considerava inadequadas, que eu poderia condenar, como o desenvolvimento do turismo no lugar, que tirou as plantas do lago, por exemplo, para poderem mergulhar, muitas pessoas de fora comprando as terras do povo dali e muitas coisas diferentes que não pertenciam àquela comunidade que eu conheci e onde vivi, muito comércio com os bens da floresta, tudo diferente. No meu pensamento, não estava acusando ninguém, mas tentando entender, conviver com aquela situação tão estranha para mim.
Acredito que esse foi o estado adequado para o Apuí resolver conversar comigo, porque são os seres da floresta que decidem conversar com a gente; diferentemente da conversa entre humanos, em que as pessoas acabam parando de escutar pois se preocupam em dar respostas ou retrucar, na conversa com um ser da floresta, este traz uma revelação e depende de você querer escutá-la; essa revelação se manifesta no comportamento dele. Então, ou você se abre para receber aquela informação, aquela manifestação, aquela revelação, ou você não percebe e não aprende nada. No caso, o Apuí começou a me mostrar que ele estava ali e atacava aquela árvore, pois tinha algo a fazer ali; que quem achava que ele era ruim por avançar nas árvores mais viçosas era ignorante; ao expandir a revelação, o Apuí mostrou que tudo que estava ali não era por acaso, todos os seres da floresta estavam ali em harmonia. O som da floresta é harmônico, existe no fundo um certo silêncio que proporciona a escuta de tudo que soa ali dentro. Ele foi mostrando, como se dissesse: “Como você vai se considerar uma filha da terra, se achar que sua maneira de ver, se comportar e atuar nessa Mãe Terra é melhor do que outras?”
Foi uma conversa sutil, delicada, apesar da potência daquele ser, que foi penetrando na minha própria experiência de ser humano que carrego comigo tantas coisas – aprendizados, crenças, posicionamentos – e que estava sendo acolhida ali por ele, onde todos os seres têm seu lugar. Foi uma vivência tão profunda de paz, porque eu me senti como se eu fosse aquela árvore que, ao invés de ser atacada pela outra talvez poderia se considerar como abraçada; o abraço foi tão forte que absorveu ela e se manifestou com a força dela. Foi como me senti dentro da floresta, sendo abraçada por ela, pela terra de uma forma muito profunda. E me remeteu a tudo que eu havia vivido no dia anterior e trouxe uma outra compreensão, mais profunda; eu já estava com o pensamento mais aberto, de acolher todas aquelas coisas, pois no fundo eu tinha uma certa crítica e, no final de tudo, o Apuí foi me mostrando que para aquelas situações e comportamentos serem considerados inadequados, é necessário que eles existam e que a experiência com eles demonstre o que não é adequado e revele o que é adequado. Esse é um ensinamento profundo do que é viver naturalmente com esses seres.
Então essa foi a experiência especial que tive na Vivência da Terra. O Apuí na verdade é uma árvore que tem esse comportamento de envolver e absorver outra árvore; talvez por isso sempre a gente se refere a ele no masculino, apesar de ser uma árvore, que na nossa língua, é feminino. Ele é bastante medicinal, às vezes é cozido junto na preparação da bebida sagrada, de acordo com o estudo espiritual; ele é muito reverenciado e, em algumas tradições é considerado o indicador de um local sagrado. Ele sendo aquele ser que tem esse comportamento de dominação, na verdade está revelando que era isso mesmo que tinha que acontecer. Ele é um filho da terra e tem essa natureza, tem o seu lugar.
Resumindo tudo, a experiência com o Apuí, a mensagem que trouxe da Mãe Terra, que muitas vezes temos dificuldade de aprender com ela, é essa mensagem do acolhimento de tudo que existe, a aceitação, para você conhecer, você precisa acolher. Foi uma conversa muito maravilhosa, que abriu um portal para mim, porque quando eu vou fazer a síntese da minha experiência pessoal com essa imersão, foi que eu entrei totalmente na manifestação da minha criança interior e ela começou com esse acolhimento da Mãe Terra, que veio para mim através do Apuí.
Era essa história que eu queria contar, que traz muitos fundamentos, sendo um deles, que tudo está contido no mesmo e de como você vai conhecer a mensagem da natureza, das plantas, dos mistérios, se você não acolhe, se você não silencia dentro da sua mente e do seu coração. Todos somos filhos da Mãe Terra, fazemos parte dessa experiência deste planeta que nos acolhe.

